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O Homem de Mármore Róseo

por Manoel Cabral Machado



          Muitos, aceitando a compreensão de Ortega e Gasset, afirmam ser o homem constituído dele mesmo e de sua circunstância. A circunstância, porém, terá maior ou menor compreensão. Uns acentuam que a circunstância faz o homem. Outros, ao contrário, que é o homem que exprime ou revela esta sua circunstância. A verdade nem todos a possui, se o homem é definido pelas concepções mais ou menos extremadas de cada pensador. Sabemos que nas circunstâncias do homem estão, evidentemente, os outros homens. Então, os outros, na visão do ególatra Sartre, são o inferno. Na compreensão cristã, porém, sobremodo humana, esses homens são nossos irmãos. De qualquer forma, como inferno ou irmão, os outros são necessariamente o nosso próximo, os companheiros de viagem.

          Com estes companheiros das nossas relações necessárias temos convergências e divergências. Mas divergências, basicamente, resultantes de interesses, compreensões filosóficas, convicções políticas, ideológicas ou religiosas e que provocam até separações e mesmo, lamentavelmente, agressões e conflitos, quando inexiste a tolerância. Creio que as divergências políticas ou religiosas são as que mais separam. Mas também são as que mais aproximam e unem.

          Conheci o meu amigo, Dr. José Silvério Leite Fontes, em 1942, na Faculdade de Direito da Bahia. Estava eu a concluir o Curso de Direito enquanto ele iniciava. Conhecemo-nos, porém sem aproximações. Anos depois, em Aracaju, estando todos nós formados em Direito, é que viemos a nos aproximar por força das convicções religiosas e na participação na política partidária. Aqui em Aracaju, Silvério tornara-se um dos líderes religiosos, amigo do Dr. Hélio Ribeiro, o esquecido e admirável homem de profunda compreensão e vivência cristã e que marcara a alma de muitos jovens católicos como Luís Rabelo Leite e o próprio Silvério Leite Fontes.

          Silvério participara do movimento político da Liga Eleitoral Católica (LEC) em fase áurea, posicionando-se com os demais membros da LEC contra os candidatos do pleito de 1946 ao governo do Estado, em Sergipe, apoiados pelo Partido Comunista. Por esse tempo, exercia atividades de magistério na Escola do Comércio e na Escola Normal, onde depois conquistaria a cátedra de História do Brasil com a valiosa tese “Jackson de Figueiredo – Sentido de Sua Obra”. Também nesse tempo escrevia no jornal católico “A Cruzada”, participando do seu conselho redatorial.

          No governo Arnaldo Garcez, ocupou o cargo de secretário particular. Eu político, eleito deputado estadual pelo Partido Social Democrático, exercia as funções de líder do governo. Teria de estar, portanto, em contato constante com o secretário do governo, Dr. Silvério. Depois travou uma batalha difícil para conquistar a cátedra de História do Colégio Estadual de Sergipe, ao tempo do governo adversário udenista Luís Garcia, tendo apresentado a tese “Formação do Conceito de Fato Histórico na Cultura Ocidental”, em 1958. Antes, fora nomeado Técnico de Educação do Ministério da Educação. Anteriormente, com a criação da Faculdade de Filosofia, no governo José Rolemberg Leite, fora um dos seus professores fundadores, exercendo a cátedra de História. Posteriormente, veio a ministrar Direito Público Internacional na Faculdade de Direito de Sergipe.

          Nossas relações mais se aproximariam no convívio universitário, seja na Faculdade de Filosofia, seja na Faculdade de Direito, especialmente após a fundação da Liga Universitária Católica (LUC), fundada pelo então padre D. Luciano Cabral Duarte. Silvério, firme nas suas convicções, mostrava-se um estudioso das questões filosóficas e políticas. Destaco que o seu interesse pela filosofia começou em Salvador, no Ginásio da Bahia, graças, principalmente, ao Profº Herbert Parentes Fortes, o Sócrates da nossa geração. Professor de muita cultura filosófica e política, Herbert Fortes sendo ademais profundamente religioso, na Bahia divulgava o pensamento de Jaques Maritain, Leon Bloy, Daniel Hopes e outros. Graças a Herbert Fortes, Silvério conseguiu vencer sua crise religiosa e conservar a crença católica. De volta a Aracaju, já formado em Direito, como é natural, tornou-se um líder católico operante com sua ação apostólica e vivência religiosa. Assim no começo, assim por toda a vida.

          Em Aracaju, Silvério passou a escrever em vários jornais, mormente em “A Cruzada” e na “Gazeta de Sergipe”. Esse material publicado serviu de base para um outro seu livro, entitulado “Coluna de Jornal”. Também publicou vários ensaios sobre pesquisas educacionais e dissertações filosóficas, históricas e jurídicas em muitas revistas especializadas, tais como: “Revista da Faculdade de Direito de Sergipe”, “Jornal Academus”, “Revista da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe”, “Revista da Academia Sergipana de Letras”. Ademais, participou de vários congressos e jornadas culturais, apresentando valiosas contribuições como: “Valores e Historicidade” (IV Congresso Nacional de Filosofia – Fortaleza – CE), “Dois Estudos: Levantamento das Fontes Primárias da História de Sergipe; Labatut em Sergipe” (Contribuições a Jornadas de História) e muitos outros trabalhos e conferências apresentados ou pronunciados em congressos. Com suas preocupações com os problemas do homem no aspecto antropológico e político, escreveu outros livros, merecendo citá-los: “Razão e Fé em Jackson de Figueiredo” e “Marxismo na Historiografia Brasileira Contemporânea” e outro sobre o pensamento de Leão XIII na encíclica “Rerum Novarum”: “A Rerum Novarum: Sinal de Nova Espiritualidade Cristã”. Por suas atividades culturais recebeu muitas homenagens e comendas.

          Mas o Profº José Silvério Leite Fontes não é somente um homem da cátedra e do pensamento, é ainda um ativista, da práxis, procurando dar realização às suas convicções filosóficas, políticas ou religiosas. E assim, participou da vida sindical intensa nos movimentos de reivindicação dos interesses da classe dos professores e também na Ordem dos Advogados do Brasil, quando assumira vários cargos, inclusive na direção da Seccional de Sergipe, sempre lutando e reivindicando pelas mudanças sociais e pela defesa das liberdades públicas nos momentos difíceis do regime militar.

          Silvério e eu, por força de convicções religiosas e políticas, somos amigos e temos quase as mesmas convicções. Digo quase porque do plano ideológico temos divergências fundamentais, especialmente depois de 1964, quando tomamos rumos diferentes. Silvério, que considero a melhor cabeça filosófica da nossa geração, especializou-se na filosofia tomista, lendo a “Suma Teológica” de Santo Tomás e os escolásticos modernos, a começar de Maritain, Gilson, Garegou-Lagrange e outros e depois aprofundando-se no pensamento neo-kantista dos alemães e também dos existencialistas.

          O pensamento socialista de alguns membros de sua família, como o médico Silvério Fontes, fundador, em 1922, no Rio de Janeiro, do Partido Comunista do Brasil, talvez Silvério, na análise da “Rerum Novarum” de Leão XIII, tenha assumido, a meu ver, o seu viés familiar de simpatia pelo marxismo. Assim, lera quase toda a obra de Karl Marx, especialmente “O Capital”, pois teve a pertinácia da leitura completa de toda a obra.

          Homem de sociabilidade acentuada, Silvério realiza-se nas reuniões com amigos, nos debates da cultura, sendo assim um participante de toda a vida cultural do estado na linha dos seus interesses. Sempre reúne amigos para estudos de temas, seja filosóficos, políticos ou religiosos. São grupos de interessados que se formam e se desfazem conforme as contingências do tempo. Mas Silvério, com seu talento privilegiado, é um instigante na participação dos grupos e na vivência de suas convicções.

          Tendo eu vida e ideais políticos, estamos continuamente reacendendo as nossas divergências. Considera-me, Silvério, um partidário da direita “tout à fait” e eu o vejo sobre o prisma do irrealismo político ou sociológico, distante dos fatos presentes ou possíveis. Divergimos, porém, mais nos meios, na práxis, do que mesmo nos fins, na “ratium rerum”. Assim, enquanto sou homem marcado pela filosofia política do iluminismo, empolgado pela liberdade, aceitando limitações passageiras quando se trata de evitar o mau maior do totalitarismo político, Silvério inflama-se no ideal da igualdade e da fraternidade, inspirado nas raízes evangélicas. Silvério possui, assim, um pensamento atraído pelas idéias revolucionárias, enquanto sou partidário dos reformadores, por entender que também na política a natureza não dá saltos. E se der saltos, assume as crueldades que todas as revoluções, grandes ou pequenas, exibem.

          Silvério, por toda a vida, lutou contra uma saúde frágil, mas resiste permanentemente à doença, sem queixar-se dos sofrimentos que já são tantos. Acha-se hoje imóvel numa cadeira. Só consegue movimentar a boca e os olhos para o alimento ou a fala. A fala para manifestação da inteligência que continua lúcida e criativa. Vejo-o como o homem de mármore róseo e fico a pensar na estátua do prodigioso Rodim, na estátua “O Pensador”. Será que algum demiurgo ou gênio mau prendeu o meu amigo numa pedra rósea, uma pedra cinzelada?!

          Mesmo assim, preso à carne imobilizada, quer saber do mundo, opinar sobre a vida social e política do plano nacional e internacional, escrever livros, fazer reuniões com amigos, realizando-se como homem em plenitude, segundo a sua estrutura e segundo as suas relações fundamentais, conforme as duas grandes regiões categorias do homem na concepção da Antropologia Filosófica : o seu ser-em-si (esse in se) e o seu ser-para-outro (esse ad alium vel aliud). Missão cumprida, portanto. Deo Gratias.



Aracaju, outubro de 2002

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