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Razão e Fé


          Em 14 de setembro do ano passado, o Santo Padre João Paulo II divulgou uma Carta Enciclíca, dirigida ao Episcopado católico, que recebeu o título acima. Sobre ela tecerei alguns comentários compatíveis com a dimensão jornalística.

          Em primeiro lugar, o Papa insiste que a condição humana exige, para a realização do homem que este se conheça a si próprio, como já o exigiam os gregos pagãos, no texto inscrito no templo de Delfos. Conhecer é principalmente uma operação da inteligência racional. Isso é válido para todos os homens, em proporção ao cultivo de sua capacidade cognóscitiva. Se poucos são os filosófos dedicados predominantemente a esse exame, todos sentem necessidade de perguntar-se sobre os temas que implicam nesse exame: “ Quem sou eu?De onde venho e para onde vou? Por que existe o mal? O que existirá depois desta vida?”Perguntas tão inevitáveis e cheias de angústia, que são permanentes e retornam toda vez que suspendemos as reflexões sobre as exigências do dia a dia.

          Acrescento que, no Brasil,, a mentalidade agnóstica de alguns afastou da escola essas interrogações, substituindo-as pelos problemas pragmáticos da profissão ou da política. Por sua vez, onde subsistiu, como nos seminários, o ensino da filosofia ganhou um cariz mecanicista, afastado dos problemas vitais do ser humano.

          Ora, estudando filosofia ninguém se prepara para o exercício das profissões temporais, mas para realizá-las de modo a seguir seu caminho como homem, pela escolha consciente de suas veredas. Todas aquelas, porém, que implicam em mensagens para viver melhor, nada são se não estiverem baseadas numa reflexão acertada sobre aqueles temas que enunciei, como professor ,educador, evangelizador, político. Neste caso particular, o político sem formação filosófica, o que não significa formação escolar, ou simplesmente um intelectual, visa apenas o gozo do poder e, em lugar de ser um servidor da comunidade, não passa de um entulho, de um explorador, de um famigerador – comerciante dos destinos dos outros homens.

          Porém, muitas perguntas da filosofia ficam sem resposta, pela fraqueza da mente humana ou porque os caminhos da perfeição estão fora do alcance de nossa perspicácia. Daí a necessidade da religião, também objeto de reflexão, da teologia. Em verdade, quem crer verdadeiramente em Deus, quer conhecê-lo sempre mais pelos caminhos de seu espírito. Claro que se trata de um conhecimento com amor e com confiança em quem nos revelou os segredos de Deus, inacessíveis aos poderes de nosso intelecto. O simples conhecimento racional é insuficiente, requisita a palavra de Deus, mas esta se dirige a um ser que pensa. Por isso, é preciso assimilar racionalmente, quanto possível a palavra revelada, de modo a identificar-se com Deus, quanto o permita a condição humana.

          Essa dupla tensão entre crer e entender foi muito bem descrita por Santo Agostinho em seus comentários do Evangelho de João ao Livro dos Salmos, e no tratado sobre a Trindade a partir dos dados da fé, isto é da revelação profética de Deus Nosso Senhor : “ Amando, temos de estar diante de Deus. E aderimos a ele para estarmos presentes A’quele de quem procedemos, pois nem poderíamos ser se Ele estivesse ausente. Pois enquanto caminhamos ainda pela fé, não pela visão, não o vemos como Ele quer, face a face. Ora, se não o vemos agora, nesta vida, nunca o veremos. Mas quem ama o que ignora? Pode algo ser conhecido e não ser amado? Mas, me pergunto agora se é possível amar o que não se conhece? Se não é possível ninguém amará a Deus antes de conhecê-lo. O que é conhecer a Deus se não vê-lo com a mente e percebe-lo demoradamente?”.

          Por isso, se a fé supõe que se conheça o que se acredita, essa mesma fé exige o conhecimento sempre mais completo para tentar satisfazer cada vez mais a sede de conhecer. Daí a experiência religiosa do cristão existirá sempre entre esses dois pólos: conhecer para crer e crer para conhecer. Na medida do amadurecimento intelectual de cada um, é preciso por-se nos dois lados dessa gangorra e oscilar com ela para usufruir o embalo da vida verdadeiramente humana. A recusa de tantos católicos brasileiros de fazê-lo, deixa-os cair da gangorra da fé inteligente na anestesia da ignorância indiferente.

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